31 de julho de 2015

Esquecimento


Esqueceu-se definitivamente de tudo quando passeava, uma manhã, pelas ruas de Lugo.
Nome, idade, morada, família, amigos, profissão.
O inverso não sucedeu e ainda hoje, passados vinte e seis anos após a sua morte, é recordado com carinho por toda a comunidade.


©Pedro Miguel Rocha

29 de julho de 2015

Aldeia



Deixou, aos cinquenta e seis anos, de acreditar nos grandes sonhos estimulados pela sociedade capitalista.
Nada do que ferozmente ambicionava se concretizava, pelo que, saturado, resolveu abandonar a cidade e rumar a Lires - sua aldeia de origem - em busca de uma vida simples e serena.
"Não podia ter feito melhor escolha", diria repetidamente nos anos seguintes.


©Pedro Miguel Rocha

27 de julho de 2015

Tempo


Recusava, afirmando não ter tempo.
Negócios, reuniões, compromissos, afazeres, horas extraordinárias, lucros e uma carreira para consolidar.
Foi ontem a enterrar no cemitério de Bruma acompanhado por meia dúzia de conhecidos.


©Pedro Miguel Rocha

25 de julho de 2015

Sem-abrigo


Ourense não lhe ligava.
Ele parecia não se importar, deixando-se definhar a cada novo dia.
"Pouco mais há a fazer", disse o médico quando ela, finalmente, o encontrou.


©Pedro Miguel Rocha

23 de julho de 2015

Cinema


Adorava cinema.
Havia guardado todos os bilhetes desde os seus 18 anos.
Agora, vergado pelo cansaço da vida, sentado num banco público da aldeia de Baíñas, limitava-se a recordar os enredos junto dos mais novos que pousavam as mochilas a caminho de casa.


©Pedro Miguel Rocha

21 de julho de 2015

Uma nova vida


Aterrou poucos minutos depois das três da tarde.
Ligou o telemóvel. Duas mensagens. Um sorriso.
Lá fora, a Corunha, o sol a derreter a pista e uma nova vida à sua espera.


©Pedro Miguel Rocha


18 de julho de 2015

Assalto


Chegara a O Grove na véspera.
Afirmava não saber de nada.
Não era isso, no entanto, que a Guarda Civil pensava.


©Pedro Miguel Rocha

16 de julho de 2015

Ritual


"Uma empanada e uma Estrella Galicia, por favor."
O empregado sorriu. Já conhecia o seu ritual há 18 anos.
Não podia, contudo, adivinhar o que viria a acontecer logo a seguir.


©Pedro Miguel Rocha

14 de julho de 2015

Surpresa


Coberta de granito.
Foi assim que a recordou naquele instante.
Desligou o computador.
Dentro de poucas horas surpreenderia Compostela.


©Pedro Miguel Rocha

11 de julho de 2015

Estrelas


Abriu a janela, inspirou o ar salgado que envolvia Fisterra naquela noite de agosto e contou todas as estrelas do céu antes de se deitar, agarrado à chávena de chá morno.
Seria a última vez que o faria.


©Pedro Miguel Rocha

6 de julho de 2015

Bandeira


Chegou a casa às onze da noite. Exausto.
Pousou a bandeira cúmplice e sintonizou a Televisão da Galiza.
Milhares de manifestantes invadiam, ainda, àquela hora, o centro histórico de Santiago.
O momento havia chegado.


©Pedro Miguel Rocha

3 de julho de 2015

Presente


Aeroporto de Vigo; Buenos Aires via Madrid.
Na mala, para além da roupa, um presente que nunca chegaria a oferecer.


©Pedro Miguel Rocha

2 de julho de 2015

Chuva


Sentou-se ao balcão ensonado e puxou o La Voz de Galicia.
Cheiro a jornal, títulos, notícias e meteorologia.
Em paralelo, um café acompanhado por um cigarro lento.
Não choveria, naquele dia, na Galiza. Apenas dentro de si.


©Pedro Miguel Rocha

1 de julho de 2015

Saudades


Passavam pouco mais de cinco minutos das cinco da tarde. Pousou a mala, desviou os cortinados e contemplou a praia despida. Em cinco anos pouco ou nada mudara em Laxe. 
Desta vez, tinha voltado para ficar.


©Pedro Miguel Rocha